320x90
logo topo
SOBRE NÓS ANUNCIE AQUI VÍDEOS FOTOS NOTÍCIAS CHARGES FALE CONOSCO  
 
  NOTÍCIAS
Nelson Cadena: a ficha caiu
Notícia Postada em: 09/06/2017
img
img
Definitivamente eu sou brega. São as raízes. Meu pai ouvia música clássica, Verdi (Rigoletto) e Vivaldi eram seus favoritos e ouvia ainda, dezenas de vezes, o “funiculi funiculá”, na minha opinião a mais brega das composições clássico-populares, em toda a história da música universal, concorde comigo. Mas, a preferência de meu pai, nas suas sonecas de meio-dia, eram as rancheiras mexicanas, as de Juan Alfredo Jimenez e as de Javier Solis, relatos de sofrência embalados na dor de corno. Com meu pai aprendi que Beethoven é o cara, mas eu sou mais Pablo e o finado, meu xará, Nelson Gonçalves.

Minha mãe era a própria sofrência. Alimentava a alma de boleros tristes, histórias de separação e reconciliação, epopeias de amor embaladas em lágrimas de pérolas, como espumas ao vento finito. Minha mãe amava “Los Panchos”. Com Leonor aprendi que Armando Manzanero era o cara e aprendi que Rocio Durcal era a grande intérprete. Minha mãe tinha razão, hoje eu sei disso. E me tornei fã de Aldemar Dutra e Roberta Miranda, de Dalva de Oliveira e Edith Piaff.

Cresci, fiquei adolescente e então acompanhava os amigos, garotos babacas como eu, de 15 e 16 anos, nas serenatas da meia-noite para as futuras namoradas. Bebíamos todas, embriagávamo-nos de amor e de expectativas e eu sonhava em surpreender um dia, um amor não correspondido, uma paquera, com uma serenata e então imaginei mariachis a cavalo postados em frente da janela e eu dedicaria a minha amada, a primeira canção, um “Quiereme Mucho”.


Um dia realizei esse sonho em parte, sem os alazães. Não mais para a paquera, mas, para um outro amor, e com um grupo de mariachis mandei ver enquanto ela ascendia a luz e espiava por uma fresta da janela: “Por tu amor que tanto quiero y tanto estraño que me sirvam otras copas y muchas mas. Que me sirvan de una vez para todo el año que me pienso seriamente emborrachar”. E assim fiz, me embebedei no limite, a ponto de minha mãe estranhar o meu estado etílico. Dormi no tapete da sala, não consegui chegar no quarto.

Não terminam por aqui as minhas influências bregas. Um dia deixei a Colômbia e fui viver no Amazonas e lá aprendi o português com as músicas de Jerry Adriani que tocavam o dia inteiro no alto-falante da praça de Humaitá, em frente do hospital onde durante dois meses me recuperei de uma malária. E um dia morei em Cachoeiro de Itapemirim e ouvia Roberto Carlos e também Waldir Soriano, na praça onde passava o dia lendo a Bíblia e o Bhagavad Gita. Em Cachoeiro, fui preso de manhã e solto ao meio-dia. E a mesma polícia que me conduziu embaixo de porrada ao juiz da cidade, porque não tinha documentos e era estrangeiro, me cumprimentava sempre que me via com um cerimonioso “bom dia”.

Por outros desígnios do destino, cheguei na Bahia e me apaixonei por uma nativa da Ilha que subia nas árvores e me desafiava: “Venha me pegar”. Aprendi a subir nas árvores por sua causa, mas nunca peguei ela que se aborreceu comigo porque peguei a prima e ficou sabendo. E então conheci uma garota que passava o fim de semana em Berlinque e nasceu a minha primeira filha e a única coisa que me ocorreu para presenteá-la, não tinha dinheiro nem para comer, foi um disco breguíssimo, o pasodoble “12 cascabeles”. Sorte dela que eu não conhecia ainda Reginaldo Rossi.

Azar da vida, deixei de ser hippie para ser sei lá que coisa. E me sofistiquei também nos hábitos de consumir música, bebi do axé e dos atabaques dos terreiros, bebi de outras fontes e resisti como ninguém às influências forâneas. Fui o último ser do planeta a descobrir Michel Jackson, que já fazia sucesso há uma década e meu filtro cerebral não me permitia registrar, o mesmo ocorreu com Madonna. Passei vergonha por esse grau de abstração e de ignorância. O que eu não sabia e agora sei, tardiamente, mas para sempre e enquanto exista a liberdade de rir ou chorar, sem a obrigação de exibir os dentes, ou escorrer uma lágrima, é que definitivamente sou brega. A ficha caiu.




 
  VEJA TAMBÉM!
• [14/06/2017] - João Roma: capital da participação popular
• [13/06/2017] - Mulher vence 30 mil inscritos e é selecionada como testadora de motéis
• [12/06/2017] - Gabriel Galo: Vitória e esperança
• [11/06/2017] - Editorial: De volta ao xadrez político
• [10/06/2017] - Presidente do STF defende apuração de suposta devassa contra o ministro Edson Fachin
• [09/06/2017] - Nelson Cadena: a ficha caiu
• [08/06/2017] - Luiz Carlos Borges da Silveira: Foro privilegiado e impunidade
• [07/06/2017] - OCDE alerta para risco político no Brasil
• [06/06/2017] - Waldeck Ornélas: Salvador sem água?
• [05/06/2017] - Dia do Meio Ambiente é comemorado com palestras e plantio de mudas em Salvador
 
 
 
Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018 
img
  Vídeos
Nenhum registro encontrado!
Veja tambem
Nenhum registro encontrado!
img
320x90
img
320x90
img
320x90
 
  Útimas Notícias
2014-03-20
Conjunto Habitacional do Monte será entregue em 27 de março
2014-03-20
6ª edição do Ação em Saúde chega ao Caípe de Cima
2014-03-25
Entrega de Informe de Rendimentos segue até 28 de março, próxima sexta-feira
2014-03-21
PM prende dupla com moto roubada em Simões Filho
2014-03-21
Ibope: Dilma seria reeleita no 1º turno
 
img
320x250
img
  Informa:
img
 
img
 
Redes Socias

 

São Francisco Notícias - Todos os direitos reservados
Criado por Webiserv